Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.[O jogo da amarelinha, capítulo 7.]
11 Dezembro 2009
como una luna en el agua
08 Dezembro 2009
justiça cósmica
Será que existe uma justiça cósmica na distribuição do amor, que passa por cima das decepções amorosas? Tem quem acredite que há um déficit na balança de carinho porque as pessoas hesitam em dá-lo... Alimente o seu espírito com poesia e música. Deixe que o amor circule livremente.
Eu tenho a minha "poesia". A minha flor, meu bebê.
Eu tenho a minha "poesia". A minha flor, meu bebê.
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da sua vida. (...) [Drummond]
03 Dezembro 2009
29 Novembro 2009
blod do sócrates?
“SE A MENTIRA TEM PERNA CURTA, POR QUE ELA CORRE MAIS QUE A VERDADE?”. ESSA O PLATÃO NÃO ANOTOU.
Continuo sendo um dos pensadores mais influentes da história da humanidade. Isso me enche de orgulho, apesar de que meu sonho mesmo era ter sido jogador de futebol. Ocorre que, como todos bem sabem, não deixei nada registrado. Minha produção intelectual foi toda escrita por meu discípulo Platão, que – também é de conhecimento de todos – estava sempre apaixonado. Portanto, muita coisa que eu disse ficou deturpada, outras mal explicadas, algumas carentes de explicação e outras necessitando de atualização. Deixei a preguiça de lado, resolvi eu mesmo vir aqui fazer essa revisão crítica de minha obra, depois que Platão ameaçou me cobrar pelos serviços de secretaria. Ingrato. Fez-se nas minhas costas.
Conheça a ti mesmo.
Se ao fazer isso você se descobrir um chato, parte para outra. O mundo é cheio de gente interessante para você perder tempo com a pessoa errada. (...)
27 Novembro 2009
como quem colhe flores
Dois rapazes passaram por mim hoje. Iam na direção contrária, e eu não pude deixar de ouvir o que um deles disse: "amor de verdade não existe".
Eles deviam estar falando sobre relacionamento, mas não sei o motivo da afirmação sobre o amor. Acho que nunca vou saber. Se eles pudessem me ouvir, eu diria "o amor não se encontra em qualquer esquina, mas o amor existe, sim".
Eu posso perder a fé na ciência, posso perder meu senso de direção, mas se eu perder a fé no amor, não vai me sobrar mais nada pra perder.
Nem todos os dias são de primavera... Eu vivo o amor dia após dia.
Eles deviam estar falando sobre relacionamento, mas não sei o motivo da afirmação sobre o amor. Acho que nunca vou saber. Se eles pudessem me ouvir, eu diria "o amor não se encontra em qualquer esquina, mas o amor existe, sim".
Eu posso perder a fé na ciência, posso perder meu senso de direção, mas se eu perder a fé no amor, não vai me sobrar mais nada pra perder.
Nem todos os dias são de primavera... Eu vivo o amor dia após dia.
te trago mil rosas roubadas
Ao abrir aquele envelope, você foi selecionada, dentre bilhões, foi colhida da praia da galáxia como uma concha. Consigo envolvê-la com minha língua lasciva. Você. Bastante diferente de qualquer garota desbotada. Falo de elementos de atração muito mais profundos que a carne.
Nossos olhos se encontraram de verdade.
Quero estar presente quando seus olhos se abrirem pela manhã e você me vir e sorrir. Paraíso.
Terminemos este postprelúdio com uma declaração à moda antiga: amo você.
Nossos olhos se encontraram de verdade.
Quero estar presente quando seus olhos se abrirem pela manhã e você me vir e sorrir. Paraíso.
Terminemos este postprelúdio com uma declaração à moda antiga: amo você.
24 Novembro 2009
curta o curta
O curta “Vincent” foi a primeira animação de Tim Burton, produzida
em 1982, nos EUA. Narra a história do pequeno Vincent Malloy,
um menino que sonha ser Vincent Price, lendário ator conhecido
como “O mestre do terror”. Diferente dos outros meninos, Malloy
adora ler Edgar Allan Poe, tanto que mergulha dentro das leituras
que faz. Feito em stop-motion, tem a narração do próprio Vincent Price.
em 1982, nos EUA. Narra a história do pequeno Vincent Malloy,
um menino que sonha ser Vincent Price, lendário ator conhecido
como “O mestre do terror”. Diferente dos outros meninos, Malloy
adora ler Edgar Allan Poe, tanto que mergulha dentro das leituras
que faz. Feito em stop-motion, tem a narração do próprio Vincent Price.
[Só para tirar a cabeça das mediações pedagógicas, das NTICs,
das transversalidades. Parece tão sombrio quanto os assuntos
citados, porém mais divertido.]
é assim
(...)
Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...
Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!
[fragmento de JG de Araujo Jorge - 1935]
Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.
[Clarice Lispector]
Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...
Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!
[fragmento de JG de Araujo Jorge - 1935]
Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.
[Clarice Lispector]
22 Novembro 2009
O assassino era o escriba
Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.
[Paulo Leminski]
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.
[Paulo Leminski]
20 Novembro 2009
16 Novembro 2009
14 Novembro 2009
14 Setembro 2009
soneto de devoção
Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
Rio de Janeiro, 1938
in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"
23 Agosto 2009
keatsinspiração
“Não tenho certeza de nada, a não ser da santidade dos afetos do coração e da verdade da imaginação – o que a imaginação capta como beleza deve ser verdade – tenha ou não existido antes.”
John Keats, carta a Benjamin Bailey, 22 de novembro de 1817.
16 Agosto 2009
all I can provide
Por vezes, num misto de vontade e pensamentos rondantes, fiz login, abri esse editor de texto e fiquei. É isso: fiquei. Esperei que os pensamentos se alinhassem... Nada. Talvez quisesse mudar o assunto - que gira sempre em torno das minhas emoções. Vividas, desejadas, imaginadas. E aí o pensamento pensa na dorzinha que dói o amor vezenquando, na alegria que alegra o amor quase sempre, no encanto que encanta o amor encantado, nas línguas que se tocam, nos gestos mais furiosos e mais amenos, nos gemidos, nas secreções líquidas e secretas, segredo de duas, nas ardências ardentes, nas inconfessáveis fantasias confessas. Segredos de liquidificador.
E a madrugada acaricia as minhas olheiras enquanto eu continuo buscando um lugar meu no mundo.
Em horas como essa não ofereço perigo algum, encolhida como uma folha de outono.
E a madrugada acaricia as minhas olheiras enquanto eu continuo buscando um lugar meu no mundo.
Em horas como essa não ofereço perigo algum, encolhida como uma folha de outono.
"Let me sing you a waltz* música-inspiração de fundo: Jazzanova
Out of nowhere, out of my thoughts
...
I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow, another arms
My heart will stay yours until I die
(Trecho incidental da canção "A waltz for a night", Julie Delpy.)
05 Julho 2009
conforto
Como descrever, narrar, contar esse seu corpo que entre o frio e o lençol se esconde e se anuncia?
Com você entendo o bom das coisas.
Com você entendo o bom das coisas.
19 Maio 2009
amor de tarde, mário benedetti
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.
* Adiós, Don Mário Benedetti.
08 Abril 2009
o que é que te assombra?
Entrego-me inteiramente aos secretos impulsos dos meus dedos. Efeito da excitação de espírito em que me acho. Coração ligado, beat acelerado... Enfim, há um treco que eu queria entender. Não sei. E você acredita que a gente é o que a gente faz. Acaba indo pra cama ou se casa. Briga, se engana porque faz tudo no escuro, sem amar, me entende?
Eu nunca quero ter vergonha do que eu sou capaz de sentir. Quero passear de mãos dadas, brincar de pisar na nossa própria sombra. Café da manhã, almoço, jantar, ligações telefônicas no meio da tarde, no meio da noite. Sons, gostos, sabores. Teu sabor. O doce e o salgado em você. O tempo não existe.
Será amor o nome que damos pra essa necessidade doentia que se destrói? Será que a gente só sabe que ama quando o coração pulsa entre as pernas?
Eu sei que amo porque o meu coração (e o dela) pulsa além do "entre as pernas".
As duas no banheiro depois de ouvir o "clic" da tranca da porta. Você ri tensa, eu sorrio. Abro os braços, dois passos e nos abraçamos. Eu sentada, rosto no seu ventre. Quero ver como são seus olhos quando eles se estreitam.
Quem ama não percebe o jeito que ama. Mas eu percebo que o coração pulsa entre as minhas pernas quando o amor já não cabe na frase. Quando eu descubro que o luar é o que existe de mais perfeito, só que depois, bem depois, muito depois de você.
O pensamento não pára.
Tenho pena das mulheres que não gozam.
Eu nunca quero ter vergonha do que eu sou capaz de sentir. Quero passear de mãos dadas, brincar de pisar na nossa própria sombra. Café da manhã, almoço, jantar, ligações telefônicas no meio da tarde, no meio da noite. Sons, gostos, sabores. Teu sabor. O doce e o salgado em você. O tempo não existe.
Será amor o nome que damos pra essa necessidade doentia que se destrói? Será que a gente só sabe que ama quando o coração pulsa entre as pernas?
Eu sei que amo porque o meu coração (e o dela) pulsa além do "entre as pernas".
As duas no banheiro depois de ouvir o "clic" da tranca da porta. Você ri tensa, eu sorrio. Abro os braços, dois passos e nos abraçamos. Eu sentada, rosto no seu ventre. Quero ver como são seus olhos quando eles se estreitam.
Quem ama não percebe o jeito que ama. Mas eu percebo que o coração pulsa entre as minhas pernas quando o amor já não cabe na frase. Quando eu descubro que o luar é o que existe de mais perfeito, só que depois, bem depois, muito depois de você.
O pensamento não pára.
Tenho pena das mulheres que não gozam.
15 Março 2009
De um tempo passado. Era no tempo do rei...
Eu tenho ciúme. Não desconfio de você. Juro. Quando falo alguma coisa que seja "desconfiante" é mais pra te ouvir dizer o contrário, é mais pra te ouvir falar de amor, de querer ficar junto. O que eu não gosto é dessas pessoas nos bombardeando com e-mail, telefonemas, torpedos, recados... Essa suposta liberdade para "aparecer" do jeito que querem. Não gosto.
Você é minha! Não é minha propriedade. É minha mulher, é minha namorada, é minha amante. É minha noiva. É a mulher que meu coração reconheceu, que eu reconheci como aquela única pessoa com a qual eu desejo ficar e viver por todo tempo que existe.
Você me sabe mais que eu. Eu deixo que você me saiba mais que eu. Eu faço todos os juramentos e promessas de amor por você. Tanto nas juras mais vivas como nos beijos mais longos, eu amo você.
Eu te amo até o mundo acabar e mesmo depois.
Não quero qualquer outra pessoa com qualquer tipo de liberdades contigo. Tenho vontade de falar com a pessoa, de ir tomar satisfação. De dizer pra todo mundo que você está comigo. Que a gente se ama. Que você não tem olhos, nem cabeça e nem corpo pra qualquer outra pessoa. Só pra mim.
O mundo que enlouqueça, mas você é minha. Somente minha.
Você é minha! Não é minha propriedade. É minha mulher, é minha namorada, é minha amante. É minha noiva. É a mulher que meu coração reconheceu, que eu reconheci como aquela única pessoa com a qual eu desejo ficar e viver por todo tempo que existe.
Você me sabe mais que eu. Eu deixo que você me saiba mais que eu. Eu faço todos os juramentos e promessas de amor por você. Tanto nas juras mais vivas como nos beijos mais longos, eu amo você.
Eu te amo até o mundo acabar e mesmo depois.
Não quero qualquer outra pessoa com qualquer tipo de liberdades contigo. Tenho vontade de falar com a pessoa, de ir tomar satisfação. De dizer pra todo mundo que você está comigo. Que a gente se ama. Que você não tem olhos, nem cabeça e nem corpo pra qualquer outra pessoa. Só pra mim.
O mundo que enlouqueça, mas você é minha. Somente minha.
15 Janeiro 2009
a gente precisa ver o luar
Cabeça, corpo, cama, desejo, desejo, desejo, coração, futuro, calma, alma, confiança, a boca mágica e maravilhosa que sabe exatamente o que quer fazer e tem, deitada a seu lado, alguém que quer fazer a mesma coisa e nada mais.
23 Dezembro 2008
onde as borboletas estão

Noite alta, certa loucura, nenhum álcool e muito amor no coração.
Eu gosto quando você diz sabe, nunca tive um papo assim que nem o que tenho contigo. E de quando você diz calma, vem cá e me abraça inteira e me faz deitar a cabeça em seu ombro, e tudo passa assim desse jeito.
Não, não quero nada nem preciso se estiver contigo.
12 Dezembro 2008
a língua lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
(fonte - http://www.memoriaviva.com.br/drummond/verso.htm)
Eu queria muito ser confortada por você. Lambida por você. Aconchegada.
17 Novembro 2008
o que não cabe na palavra
"Conversar é versar juntos", eu li do Gaiarsa. Eu faço uma estrofe, ela faz outra, e assim formamos uma poesia. Nossas descobertas e o nosso envolvimento nesse clima de respeito e liberdade. É gostoso nos descobrir sem pressa...
Um tesão esse momento onde estou totalmente voltada para ela . Para tudo o que eu amo nela... O sorriso, o jeito de andar, o cheiro. Ai, o seu cheiro! Nossa intimidade é poema do começo ao fim. Todos os momentos contigo são intensos. Estou muito envolvida. Como nunca estive antes. Há muita leveza nessas palavras.
No meio de tantas palavras, será que consigo realmente revelar a origem mais autêntica do meu desejo, dos prazeres e atos? É que amor não se esconde e viver esse amor é experimentar o sentido e a doçura da vida. Por esse motivo é que eu quero rasgos de lirismo incoerentes, quero ser ridícula como as cartas de amor ridículas do Fernando Pessoa. Mas "não facilite com a palavra amor", adverte o Carlos Drummond. Eu sei, Carlos. Eu tento. É que quando penso nela, sinto os passos leves do vento. Nenhum estímulo é mais determinante para o meu sorriso do que pensar nela.
Num mundo de pessoas tão fragmentadas, onde são cultivados os prazeres efêmeros e os relacionamentos se tornam cada vez mais descartáveis, vemos a grande maioria das pessoas entrando em relacionamentos com falsas expectativas. De mãos dadas, porém, nós seguimos na contra-mão desse mundo!
Fico aqui com o gosto da boca e do cheiro. Mas também tem a taquicardia, o frio na espinha, o vermelho no rosto, o brilho nos olhos e o sorriso na boca. A felicidade me enche o peito. Mesmo quando estamos longe. Mesmo que seja a maior barra "tar" longe dos sorrisos, dos carinhos dela. Da sensibilidade. O olhar dela suaviza a minha vida. Diante desse olhar, eu me curvo e me confesso apaixonada.
Ei, você! Eu desafiaria mil perigos para ver você, inclusive pegaria uma borboleta pra você... Ou colocaria uma estrela em seu bolso.
Perdoe a minha precariedade e as minhas palavras desajeitadas.
Te quero imensamente. Meu coração bate forte.
No meio de tantas palavras, será que consigo realmente revelar a origem mais autêntica do meu desejo, dos prazeres e atos? É que amor não se esconde e viver esse amor é experimentar o sentido e a doçura da vida. Por esse motivo é que eu quero rasgos de lirismo incoerentes, quero ser ridícula como as cartas de amor ridículas do Fernando Pessoa. Mas "não facilite com a palavra amor", adverte o Carlos Drummond. Eu sei, Carlos. Eu tento. É que quando penso nela, sinto os passos leves do vento. Nenhum estímulo é mais determinante para o meu sorriso do que pensar nela.
Num mundo de pessoas tão fragmentadas, onde são cultivados os prazeres efêmeros e os relacionamentos se tornam cada vez mais descartáveis, vemos a grande maioria das pessoas entrando em relacionamentos com falsas expectativas. De mãos dadas, porém, nós seguimos na contra-mão desse mundo!
Fico aqui com o gosto da boca e do cheiro. Mas também tem a taquicardia, o frio na espinha, o vermelho no rosto, o brilho nos olhos e o sorriso na boca. A felicidade me enche o peito. Mesmo quando estamos longe. Mesmo que seja a maior barra "tar" longe dos sorrisos, dos carinhos dela. Da sensibilidade. O olhar dela suaviza a minha vida. Diante desse olhar, eu me curvo e me confesso apaixonada.
Ei, você! Eu desafiaria mil perigos para ver você, inclusive pegaria uma borboleta pra você... Ou colocaria uma estrela em seu bolso.
Perdoe a minha precariedade e as minhas palavras desajeitadas.
Te quero imensamente. Meu coração bate forte.
21 Outubro 2008
a fruição da linguagem
Um dos hábitos mais gostosos é o da leitura simultânea, descontraída, de vários livros, sem a preocupação de acabar a leitura. Mas o que eu acho gostoso mesmo é a fruição da nossa linguagem. Eu piro por essa leitura demorada - que me deixa com a calcinha melada só de imaginar...
11 Setembro 2008
astronomia amorosa
Em teu corpo
- agrupamento de estrelas
(astrônomo)
vejo constelações:
uma está
na ponta de tua língua
outra
a oeste de teus olhos
outra
pousada no ombro esquerdo
outra
na curva de tuas nádegas
outra
ao norte do seio se irradia
e na panturrilha esquerda
outra pequena brilha.
No sexo
uma estrela de 5ª grandeza
incendeia a galáxia inteira.
(Affonso Romano de S'antanna.)
- agrupamento de estrelas
(astrônomo)
vejo constelações:
uma está
na ponta de tua língua
outra
a oeste de teus olhos
outra
pousada no ombro esquerdo
outra
na curva de tuas nádegas
outra
ao norte do seio se irradia
e na panturrilha esquerda
outra pequena brilha.
No sexo
uma estrela de 5ª grandeza
incendeia a galáxia inteira.
(Affonso Romano de S'antanna.)
Tema nenhum além do amor - tecendo, juntando. Amor que tudo enlaça.
19 Agosto 2008
procura da poesia
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
(Carlos Drummond de Andrade)
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
(Carlos Drummond de Andrade)
18 Julho 2008
amando
Amar alguém que te ama. Querer alguém que te quer.
Tem coisa mais gostosa na vida do que o amor?
Tem coisa mais gostosa na vida do que o amor?
11 Junho 2008
quem não tem namorado
Quem não tem namorado tirou férias do melhor de si. Namorado é a mais difícil das conquistas. Necessita de adivinhação, pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil! Namorado é mais difícil porque não precisa ser o mais bonito e sim quem se quer proteger, mas, quando chega, a gente treme, basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode estar sem namorado.
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho e se acaricia sem vontade virar sorvete ou lagartixa, quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda rápida, escondida, fugidia, impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de olhar encabulado; de carinho escondido ou flor catada no alto do muro e entregue de repente; de gargalhada, quando fala ao mesmo tempo ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico, bugre, foguete interplanetário, ou carrossel de parque suburbano.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado e comprar roupa juntos.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor e de ficar horas olhando o outro, abobalhado de lucidez.
Não tem namorado quem não tem música secreta, não dedica livros, não recorta artigos e não se chateia com o fato do seu bem amado ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar; quem não passa ou recebe trote.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou ao meio-dia em dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações e quem só pensa em ganhar.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e tem medo de mostrar que se emociona.
Se você não tem namorado é porque ainda não descobriu que amar é alegre mas você pesa duzentos quilos de grilos, ponha a saia mais leve, aquela de renda de harpa e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e sorria lírios para quem passar debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão soasse a flauta e do céu baixasse uma nuvem de borboletas, cobertas de frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu nem cresceu aquele pouco necessário para fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enloucresça!...
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil! Namorado é mais difícil porque não precisa ser o mais bonito e sim quem se quer proteger, mas, quando chega, a gente treme, basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode estar sem namorado.
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho e se acaricia sem vontade virar sorvete ou lagartixa, quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda rápida, escondida, fugidia, impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de olhar encabulado; de carinho escondido ou flor catada no alto do muro e entregue de repente; de gargalhada, quando fala ao mesmo tempo ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico, bugre, foguete interplanetário, ou carrossel de parque suburbano.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado e comprar roupa juntos.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor e de ficar horas olhando o outro, abobalhado de lucidez.
Não tem namorado quem não tem música secreta, não dedica livros, não recorta artigos e não se chateia com o fato do seu bem amado ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar; quem não passa ou recebe trote.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou ao meio-dia em dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações e quem só pensa em ganhar.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e tem medo de mostrar que se emociona.
Se você não tem namorado é porque ainda não descobriu que amar é alegre mas você pesa duzentos quilos de grilos, ponha a saia mais leve, aquela de renda de harpa e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e sorria lírios para quem passar debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão soasse a flauta e do céu baixasse uma nuvem de borboletas, cobertas de frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu nem cresceu aquele pouco necessário para fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enloucresça!...
(Artur da Távola, Amor a sim mesmo.)
02 Junho 2008
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