01 Fevereiro 2012

Eu tô cansada de gente que "escreve bonito" pra ver se entra pra lista dos 10 mais.

05 Novembro 2011

mundo mudo

Salta, mundo, desse caroço
de pedra em que
estás aprisionado

toda rua termina em muro
toda palavra representa
uma falha

salta, mundo, desse
caroço
de pedra

as camadas de aluvião
para que aflore
um grão
um broto
um grito para quem está
exausto de auscultar teu corpo
ferido

(Donizete Galvão)

Para tu... que não te moves de ti.



04 Agosto 2011

sem enfeite nenhum

Queria sentir a chuva de flores amarelas, de Cem anos de solidão, e renascer dessa imagem feita só de sensações.

a espantosa realidade das coisas, de Fernando Pessoa

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 

05 Julho 2011

o acaso dos ventos

Vontade de empunhar a caneta, jorrar tinta em você. O telefone não acabou com esse gênero histórico. A carta continua resistindo aos séculos. A letra no papel. O tempo da escrita. O tempo que não é o mesmo da pessoa que vai receber a carta, é outro. Ainda assim, vale. Valerá. 
Quem apaga isso?
Aprendia-se a amar, primeiro, por meio das cartas. O amor inscrito no papel. A carta era a promessa do corpo. A promessa da inscrita do corpo no corpo do outro.
O amor.

22 Junho 2011

I hold you in my mind

Certa noite, ela e eu descobrimos a música. "Dance with me, I want my arm about you, that charm about you will carry me through to... heaven!"
Já tentei começar a escrever pra ela algumas vezes. Fico vacilante. Queria escrever algo no tom dela. Mas a música dá uma saudade! E eu só sei sentir.
Um bom abraço,
e saudades,
e vem cá,
e até

17 Junho 2011

nexus

Algumas vezes, o pensamento faz amor.
Que lua haverá "la noche que me quieras"
[...]
Sei que tudo que estou fazendo é viajar sem me mover.
Saudade de você. Molhada e escorrida.


20 Abril 2011

era uma vez uma história acontecida

E certa vez eu tive meu primeiro beijo com uma garota ou deveria dizer que ela certa vez teve o primeiro beijo comigo. Era no tempo de festa junina... Foi quando estávamos em quatro garotas, sentadas uma ao lado da outra, no condomínio onde ela morava. A ordem era Simone, ela, Carla e eu. Ela tinha 13 e eu 15. E no meio de uma conversa entre as quatro, ela me chama pra contar qualquer coisa no ouvido. Carla jogou o corpo para frente para que ela e eu pudéssemos nos aproximar. E ela me disse “eu vou beijar você” e recuou lentamente a cabeça para trás, rosto colado ao meu, deslizando a boca do pé do meu ouvido até a minha boca. E tudo em mim parou. Simone e Carla falando em garotos e ela ali, entrando na minha história. Acho que mil expressões passaram por mim. Segundos em que o mundo parou para que eu sentisse aquela língua na minha boca. As duas sem jeito para o beijo e ninguém podia perceber. Tive vontade de abraçá-la. E o restante da noite se passou sem eu sequer imaginar o que elas falavam. Deviam falar ainda nos garotos. Eu só fazia “é”, “hum rum”. Eu havia tido meu primeiro beijo com uma garota e achei que nunca mais conseguiria sair daquele torpor. E me sentia tão mais velha do que ela. Quase uma criminosa por tê-la beijado de volta. Mas ela era tão adolescente quanto eu. Duas noites após aquela, eu não suportei. Inventei uma desculpa para as outras garotas, peguei a mão dela e a levei para as escadas do prédio. Parei logo no primeiro andar e eu a beijei. Com um desejo infinito de vencer todos os sentidos. Ainda tenho uma carta com um cacho dos cabelos dela.

É. Hum rum.

Há noites em que sinto a vida sem pressa de acontecer.

19 Abril 2011

tedium vitae

A vida não é uma história em que cada minúcia encerra uma moral. Se assim fosse, seria irrespirável.

12 Abril 2011

quase

Noite fria, e eu me sinto distante e então eu sinto uma saudade no peito, uma saudade de criança, e volto no tempo bem devagar, há 3 anos, há 10 anos, há 20 anos. Quase consigo aninhar as pessoas em meus braços.
Que vontade de escrever as sensações que sinto, palavras que pareceriam ridículas, simples demais e talvez você pensasse que escrevo por teimosia, só mesmo para existir. E não é que eu sinto algumas vezes a minha imagem perdida no espelho? Olho o meu reflexo e procuro a menina que fabulava histórias com bonecos de plástico e cadeirinhas de criança. Eu fazia novelas sentimentais bem atrás do pé de tamarindo. Uma árvore tão alta e tão idosa que teve que ser cortada pelo corpo de bombeiros. Mal sabíamos que aquela árvore era a força dos meus avós, da nossa família. Sem ela, ficamos menos nítidos.

A única realidade da vida é a sensação.
Fernando Pessoa

05 Abril 2011

a indiferença nada mais é...

 

Autor: Elie Wiesel
A INDIFERENÇA NADA MAIS É QUE A INCAPACIDADE DE PERCEBER AS DIFERENÇAS.
É UM ESTADO ANORMAL, NO QUAL PERDE A NITIDEZ A FRONTEIRA ENTRE A LUZ E A ESCURIDÃO, A ALVORADA E O CREPÚSCULO, O CRIME E O CASTIGO, A CRUELDADE E A COMPAIXÃO, O TALENTO E A MEDIOCRIDADE.
ASSIM É A INDIFERENÇA!

Sobre o autor:
Elie Wiesel é um judeu nascido na Romênia e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, que recebeu o Nobel da Paz em 1986 pelo conjunto de sua obra de 57 livros, dedicada a resgatar a memória do Holocausto e a defender outros grupos vítimas de perseguições.

23 Março 2011

uma pedra no meio do caminho

O que fazer quando não se sabe o que fazer? Fazer de si.
Por enquanto, estou desfeita.

21 Fevereiro 2011

o eco de antigas palavras bota no corpo uma "outra vez"

Absorvida na leitura de um livro e sentindo o aroma de café, penso nos três meses que levei para achá-lo em um sebo. Estava mergulhada na leitura do prefácio do meu livro quando ela me interrompe o pensamento. Vem ao meu encontro com trejeitos e gestos expressivos. Sinto-me feliz. Ela chama o garçom e pede a conta. E ri com riso tímido. E eu a quero inteiramente para mim.
Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos adivinhar aquilo que estamos vivendo. E é assim que compreendemos o sentido do que sentimos. E ela encoraja o meu interesse por ela. Ficamos "presas" uma a outra em momentos assim. Momentos que sempre existirão em mim, momentos que parecem sair do chão como feiticeiras de Macbeth, em que esse rosto dela com todas as suas transformações e a fala vão me invadir.
Pode existir qualquer coisa mais importante que amar e ser amada? E correr os riscos do amor, vale? Não se arriscar é estar aprisionada em seu próprio corpo. Prevenir-se no amor é matar a capacidade de aprender com suas conseqüências. Vale a pena, sim. Mesmo que a canção diga que quando se ama se está sempre na plataforma de uma estação.
Bem posso, como quem ama, andar com os pés na terra e a cabeça no céu, com beijo de lábio de mulher, desejando com um amor possessivo, quase acidental. Amando, eu amo como ninguém no mundo amou. Ninguém conta as horas com ardor mais febril. Tudo é permitido: dizer tudo, tudo fazer, tudo ser, tudo experimentar, tudo em tudo.
Um número incalculável de corações bate em meu ventre. E minha língua buscando na noite salgada, na noite viscosa, na carne quente, na carne frágil. Sempre pensei que um dia ia tropeçar no meu tesão. Cheiramos. Percorremos. Mordemos. Esprememos. Lambemos. Todos os movimentos mais ondulantes. Sem-vergonhas. Retorcendo-nos. Atirando-nos uma na outra, confundindo nossos líquidos, nossos cheiros. Você me engravida de feminilidade. Assim. Assim. Assim. Assim. Assim...
Por instantes posso deixar de acompanhar as mazelas desse mundo para romancear a vida. Posso confiar nessa felicidade, confiar em meu amor, e me abandonar te olhando em silêncio e encantada com o que aconteceu de tão bom.
O amor tem tantos gostos.

16 Dezembro 2010

amar e esganar você

Sabe quando o amor vem querendo seguir para sempre, como um barco com céu estrelado? A liberdade de seguir. Tudo pode ser dito. Tudo pode ser experimentado. Esses momentos que não são só ouvidos, são convertidos nesta história que você e eu contamos sobre nós mesmas.
Falar com quem se ama é estupidamente diferente de falar com qualquer outra pessoa. Viver é diferente. Nem sempre é fácil, você e eu sabemos. O caminho é tortuoso, matamos dragões no mundo que criamos juntas, mas é doce. É doce até quando achamos que perdemos a doçura. O amor também é isso. E amar você é me interessar por você, me preocupar com você, querer te ouvir a todo instante, é desejar dançar com você coladinha, é te compreender, conhecer o seu espaço, conhecer os seus gestos, é achar que você tem que me aturar e me suportar quando nem eu mesma me suporto. Sentir o cuidado que existe na consciência que você tem do que eu posso estar sentindo, mas não consigo definir. Sentir o cuidado, teu cuidado, na disposição e suavidade de penetrar no meu mundo, e me abrir os braços.
Têm dias que eu sinto tanta saudade que sufoca. Aflição de poder depressa ficar só com você. E têm dias que eu sufoco com você.
Hum-rum...
Mesmo te amando, posso sentir emoções contraditórias. Posso ter raiva de você por quase um segundo, posso ter vontade de esganar você por quase um segundo. Depois te amo mais... É assim que esse amor pode ser a coisa mais delicada e simples do mundo. E a coisa mais irritante também.
Quais são as cores e as coisas pra te prender? Minhocas na minha cabeça dizem que para tão longo amor, tão curta me parece essa vida. E eu nem mesmo sabia que minhocas falavam.
Vem cá enroscar suas pernas em mim. Vem que eu quero deslizar meus dedos pra dentro da sua calcinha... Sentir teu mundo balançar. Tem um tesão em mim que parece mentira... Se você apenas me der a sua mão, eu não vou pedir mais nada. Algumas vezes, mais do que qualquer outra coisa, você me dá a mão. Isso é amor.
Você alegra absurdamente esse meu coração.


  * Publicado em maio de 2007. 
** Para aquela que continua alegrando o meu coração.

01 Dezembro 2010

além do ponto

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. [...]
(Fragmento do conto Além do ponto, Caio Fernando Abreu.)

11 Agosto 2010

Revista Cult » História como missão

Revista Cult » História como missão

(trechos finais da entrevista na edição 149 da revista)

CULT – Passemos, então ao livro A Revolta da Vacina. No prólogo desta edição, o senhor afirma se tratar de “um livro amargo”, dado o contexto em que foi escrito, em plena ditadura militar. O senhor acredita que muito do ímpeto de indignação característico daquela geração cedeu lugar à acomodação, à manutenção do status quo?
Sevcenko –
É obviamente uma impressão pessoal porque eu venho de uma geração que lutou contra a ditadura militar, contra o obscurantismo da censura e da repressão. A juventude era estigmatizada como uma força turbulenta e “baderneira”, pois não se podia viver com espontaneidade a condição de ser jovem. Nós tínhamos a expectativa de que, quando a ditadura acabasse, toda essa enorme massa crítica ia se traduzir em um projeto de transformação do Brasil, traduzir-se em uma sociedade distributiva, democrática e inclusiva, mas absolutamente não foi isso que se deu.

O país tomou a linha de um conservadorismo que se instaurou no mundo a partir de meados dos anos 1970, em especial a partir da liderança de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, responsáveis por trazer esse discurso que hoje domina o planeta. Então foi terrível ver toda aquela corrente de crítica, de indignação e de esperança acabar sendo reduzida a essa plataforma conservadora, representada pelas forças políticas que se tornaram hegemônicas na sociedade civil após o fim da ditadura militar.

CULT – Atualmente, o verbo “revoltar-se” tornou-se sinônimo de “nostalgia tola”?
Sevcenko –
É triste, mas é. O verbo “revoltar-se” foi muito incorporado pela indústria, pelo mercado, pelo marketing no sentido de se fazer da revolta uma espécie de atitude fashion. Ser revoltado é o modo esperto de se assumir a juventude, aquilo que na linguagem do marketing se chama atitude. Infelizmente tudo a ver com roupas, marcas e estilos, nada a ver com conteúdo e substância. Até a revolta se tornou mercadoria.

CULT – À época da Revolta da Vacina, já se mostraram ineficazes os meios de se lidar com nossas mazelas sem se preocupar efetivamente com a raiz do problema. Passados mais de cem anos, ainda não aprendemos a lição?
Sevcenko –
Quando escrevi o livro, eu o dediquei aos mortos da tragédia de Vila Socó, ocorrida em 1983, em Cubatão. Naquela ocasião houve um vazamento nas redes de distribuição de derivados de petróleo das refinarias e a população pobre da região foi se abastecer daquele combustível precioso. A favela se expandiu em cima das áreas ensopadas e as poucas pessoas que tentaram fazer alguma espécie de clamor para que a autoridade pública removesse a população dali não obtiveram sucesso. O fato é que ninguém tinha coragem de atacar o problema, muito menos a autoridade pública, pois ela negocia votos. Logo, quanto mais gente morasse lá, mais votos. Então aquilo cresceu exponencialmente até o dia em que virou uma tocha e todo mundo que estava ali foi reduzido a cinzas.

Quantas dessas tragédias anunciadas no Brasil se tornam moeda de negociação política? Por que proliferam essas construções em áreas de risco, onde qualquer alteração das condições atmosféricas ou do regime das águas vai causar uma tragédia? Porque justamente são áreas que se valorizam no mercado informal e atraem uma grande quantidade de pessoas, tornando mais fácil para as autoridades criar um sentido de negociação. Tolera-se que se assentem lá e isso significa que estarão em dívida e, portanto, terão que respaldar essas autoridades nas eleições.

CULT – O senhor acredita que por trás do discurso assistencialista à pobreza está, sobretudo, o desejo de preservá-la enquanto elemento essencial para a manutenção do nosso sistema político?
Sevcenko –
Sim, é isso que eu chamo de política assistencial remediadora. Não se quer eliminar a pobreza. O que se quer é um modo de se administrar a desigualdade para que ela se torne uma estrutura de manutenção do status quo político. Status esse que prevalece no país e não é muito diferente daquele que ensejou a Revolta da Vacina no início da República. Se então pensarmos ou na Revolta da Vacina ou na Vila Socó ou nas enchentes desencadeadas do sul até o extremo norte do país, estamos vendo o fenômeno em uma estrutura que se mantém a mesma, por mais que se diga que há um discurso de reforma e de transformação social.

CULT – A exemplo do que foi feito nos primórdios da Primeira República, o Brasil ainda busca ocultar a todo custo o flagelo da escravidão?
Sevcenko –
Eu acho que sim. Ela é na verdade a nossa herança maldita, a nossa dívida social que o país não consegue contemplar. Essa estrutura retrógrada praticamente nunca foi confrontada e nunca foi substancialmente transformada na passagem do período monárquico para o período republicano. Quando se objetivava fazer a transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado, optou-se imediatamente pelo trabalho assalariado do imigrante europeu, deixando completamente à margem toda essa enorme população egressa da escravidão, como uma espécie de um estorvo social. Fica muito evidente, no contexto da Revolta da Vacina, como o país não tinha uma resposta para sair da escravidão na direção da construção de uma sociedade integrada, equilibrada e distributiva.

Se olharmos para a história subsequente e pensarmos na condição dos trabalhadores sazonais hoje em dia – como os cortadores de cana que trabalham em condições subumanas, arrastando em suas costas o sucesso do agronegócio brasileiro –, veremos que não estamos tão longe assim das condições de escravidão. Infelizmente o quadro é de profunda indignidade. E dizer que este país é todo dedicado à promoção social hoje em dia? Isso não só é uma inverdade, mas uma afronta.

A Revolta da Vacina
Nicolau Sevcenko
144 págs.
R$ 37

19 Abril 2010

Life is better now that I found you

Sei que você gosta de passar batom. Sei que você gosta de frango. Sei que gosta de ter o carro sempre limpo. Sei que adora café com leite. Sei que gosta de viajar. Sei que gosta de me contar sobre você. Sei que gosta de conversar comigo. Sei que gosta de tomar banho junto. Sei que você adora que eu te alise as costas. Sei o quanto você tem conseguido ficar acordada quando é tarde da noite e eu quero que veja comigo alguma comédia ou Os Tudors. Sei quando você prefere ficar calada. Sei quando você quer colo. Sei que depois de qualquer bebida ou comida refaz o batom. Sei que eu implico demais algumas vezes. Sei que me adora ainda assim. Sei tanta coisa que não cabe aqui. Sei que você melhora a minha vida. Sei que o vídeo é pra você.




18 Abril 2010

chapter 38

"Reader, I married him." O estilo Vitoriano tem final feliz, mas a frase tem um significado maior. Foi um choque para a época. "Reader, he married me", teria sido mais convencional. Jane Eyre se recusa à passividade que era esperada de uma mulher da sua condição de classe. Ela diz "não" às condições de vida absolutamente restritivas as que estiveram submetidas as mulheres até a metade do século XVIII. Charlotte Brontë usou um pseudônimo masculino para as primeiras edições de Jane Eyre, ela era Currer Bell. O romance foi meio de expressão e recusa dessa situação.

Reader, I married him.  A quiet wedding we had:  he and I, the
parson and clerk, were alone present.  When we got back from church,
I went into the kitchen of the manor-house, where Mary was cooking
the dinner and John cleaning the knives, and I said -

"Mary, I have been married to Mr. Rochester this morning."  The
housekeeper and her husband were both of that decent phlegmatic
order of people, to whom one may at any time safely communicate a
remarkable piece of news without incurring the danger of having
one's ears pierced by some shrill ejaculation, and subsequently
stunned by a torrent of wordy wonderment.  Mary did look up, and she
did stare at me:  the ladle with which she was basting a pair of
chickens roasting at the fire, did for some three minutes hang
suspended in air; and for the same space of time John's knives also
had rest from the polishing process:  but Mary, bending again over
the roast, said only -

"Have you, Miss?  Well, for sure!"
[Charlotte Brontë, Jane Eyre, 1847)

my somebody

A noite. A rua calma. Cheiro de flor. Aconchego. Cheiro de você.

17 Abril 2010

o que eu aprendo com a história que contextua a literatura

Não somos melhores do que as pessoas dos séculos passados. Não somos menos egoístas. Não somos menos individualistas. Nem somos menos bárbaros.

mar me quer

"Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."
[Mia Couto - Caminho, 2000]

it's only love

06 Abril 2010

doce mais doce

O pão doce feito no Rio é muito mais gostoso do que o vendido em São Paulo. Em Sampa, o pão doce é muito massudo, quase seco. Outras delícias doces são muito saborosas na terra "da garoa", mas não há pão doce melhor do que o feito na cidade "maravilhosa". Nem sonho!
Não são só os pães doces e os sonhos do Rio que adoçam o coração que bate agora. As batidas têm por motivo uma outra doçura...

p.s.: foto tirada da janela do avião.

28 Fevereiro 2010

romance

Ao "topar" com a mulher amada, é difícil não querer logo encontrar um troço interessante pra dizer, um gesto charmoso, qualquer coisa. Isso é a fissura. A gente já emplacou trintão, não pode mais marcar touca na vida. Eu quero gozar, perder a cabeça...
O sentimento de pertencimento é uma das sensações mais incríveis da vida!

06 Fevereiro 2010

estilo recomendado nestes versos do maior poeta brasileiro de todos os tempos: Drummond

(...)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?


Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


O entorno em que nos movemos traz consigo amarras e confinamentos. Assim nunca somos tão amorosos e inocentes, como deveríamos ser de acordo com nossos recursos e nossas convicções.

E eu, profundamente falando, sigo profundamente, como sempre. É meu estilo. Não sei viver de outro modo.

11 Dezembro 2009

como una luna en el agua

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

[O jogo da amarelinha, capítulo 7.]

08 Dezembro 2009

justiça cósmica

Será que existe uma justiça cósmica na distribuição do amor, que passa por cima das decepções amorosas? Tem quem acredite que há um déficit na balança de carinho porque as pessoas hesitam em dá-lo... Alimente o seu espírito com poesia e música. Deixe que o amor circule livremente.
Eu tenho a minha "poesia". A minha flor, meu bebê.
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da sua vida. (...) [Drummond]

29 Novembro 2009

blod do sócrates?

“SE A MENTIRA TEM PERNA CURTA, POR QUE ELA CORRE MAIS QUE A VERDADE?”. ESSA O PLATÃO NÃO ANOTOU.

Continuo sendo um dos pensadores mais influentes da história da humanidade. Isso me enche de orgulho, apesar de que meu sonho mesmo era ter sido jogador de futebol. Ocorre que, como todos bem sabem, não deixei nada registrado. Minha produção intelectual foi toda escrita por meu discípulo Platão, que – também é de conhecimento de todos – estava sempre apaixonado. Portanto, muita coisa que eu disse ficou deturpada, outras mal explicadas, algumas carentes de explicação e outras necessitando de atualização. Deixei a preguiça de lado, resolvi eu mesmo vir aqui fazer essa revisão crítica de minha obra, depois que Platão ameaçou me cobrar pelos serviços de secretaria. Ingrato. Fez-se nas minhas costas.

Conheça a ti mesmo.
Se ao fazer isso você se descobrir um chato, parte para outra. O mundo é cheio de gente interessante para você perder tempo com a pessoa errada. (...)
O restante tá aqui (fonte): http://www.blogsocratico.blogspot.com/


expressionistic dance

27 Novembro 2009

como quem colhe flores

Dois rapazes passaram por mim hoje. Iam na direção contrária, e eu não pude deixar de ouvir o que um deles disse: "amor de verdade não existe".
Eles deviam estar falando sobre relacionamento, mas não sei o motivo da afirmação sobre o amor. Acho que nunca vou saber. Se eles pudessem me ouvir, eu diria "o amor não se encontra em qualquer esquina, mas o amor existe, sim".
Eu posso perder a fé na ciência, posso perder meu senso de direção, mas se eu perder a fé no amor, não vai me sobrar mais nada pra perder.
Nem todos os dias são de primavera... Eu vivo o amor dia após dia.

te trago mil rosas roubadas

Ao abrir aquele envelope, você foi selecionada, dentre bilhões, foi colhida da praia da galáxia como uma concha. Consigo envolvê-la com minha língua lasciva. Você. Bastante diferente de qualquer garota desbotada. Falo de elementos de atração muito mais profundos que a carne.
Nossos olhos se encontraram de verdade.
Quero estar presente quando seus olhos se abrirem pela manhã e você me vir e sorrir. Paraíso.
Terminemos este postprelúdio com uma declaração à moda antiga: amo você.

24 Novembro 2009

curta o curta



O curta “Vincent” foi a primeira animação de Tim Burton, produzida
em 1982, nos EUA. Narra a história do pequeno Vincent Malloy,
um menino que sonha ser Vincent Price, lendário ator conhecido
como “O mestre do terror”. Diferente dos outros meninos, Malloy
adora ler Edgar Allan Poe, tanto que mergulha dentro das leituras
que faz. Feito em stop-motion, tem a narração do próprio Vincent Price.

[Só para tirar a cabeça das mediações pedagógicas, das NTICs,
das transversalidades. Parece tão sombrio quanto os assuntos
citados, porém mais divertido.]

é assim

(...)
Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...

Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!

[fragmento de JG de Araujo Jorge - 1935]


Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.

[Clarice Lispector]