14 Setembro 2009

soneto de devoção


Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!


Rio de Janeiro, 1938

in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"

23 Agosto 2009

keatsinspiração

“Não tenho certeza de nada, a não ser da santidade dos afetos do coração e da verdade da imaginação – o que a imaginação capta como beleza deve ser verdade – tenha ou não existido antes.”

John Keats, carta a Benjamin Bailey, 22 de novembro de 1817.

16 Agosto 2009

all I can provide

Por vezes, num misto de vontade e pensamentos rondantes, fiz login, abri esse editor de texto e fiquei. É isso: fiquei. Esperei que os pensamentos se alinhassem... Nada. Talvez quisesse mudar o assunto - que gira sempre em torno das minhas emoções. Vividas, desejadas, imaginadas. E aí o pensamento pensa na dorzinha que dói o amor vezenquando, na alegria que alegra o amor quase sempre, no encanto que encanta o amor encantado, nas línguas que se tocam, nos gestos mais furiosos e mais amenos, nos gemidos, nas secreções líquidas e secretas, segredo de duas, nas ardências ardentes, nas inconfessáveis fantasias confessas. Segredos de liquidificador.
E a madrugada acaricia as minhas olheiras enquanto eu continuo buscando um lugar meu no mundo.
Em horas como essa não ofereço perigo algum, encolhida como uma folha de outono.


"Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
...
I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow, another arms
My heart will stay yours until I die


(Trecho incidental da canção "A waltz for a night", Julie Delpy.)
* música-inspiração de fundo: Jazzanova

05 Julho 2009

conforto

Como descrever, narrar, contar esse seu corpo que entre o frio e o lençol se esconde e se anuncia?

Com você entendo o bom das coisas.

19 Maio 2009

amor de tarde, mário benedetti

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

* Adiós, Don Mário Benedetti.

08 Abril 2009

o que é que te assombra?

Entrego-me inteiramente aos secretos impulsos dos meus dedos. Efeito da excitação de espírito em que me acho. Coração ligado, beat acelerado... Enfim, há um treco que eu queria entender. Não sei. E você acredita que a gente é o que a gente faz. Acaba indo pra cama ou se casa. Briga, se engana porque faz tudo no escuro, sem amar, me entende?

Eu nunca quero ter vergonha do que eu sou capaz de sentir. Quero passear de mãos dadas, brincar de pisar na nossa própria sombra. Café da manhã, almoço, jantar, ligações telefônicas no meio da tarde, no meio da noite. Sons, gostos, sabores. Teu sabor. O doce e o salgado em você. O tempo não existe.

Será amor o nome que damos pra essa necessidade doentia que se destrói? Será que a gente só sabe que ama quando o coração pulsa entre as pernas?

Eu sei que amo porque o meu coração (e o dela) pulsa além do "entre as pernas".

As duas no banheiro depois de ouvir o "clic" da tranca da porta. Você ri tensa, eu sorrio. Abro os braços, dois passos e nos abraçamos. Eu sentada, rosto no seu ventre. Quero ver como são seus olhos quando eles se estreitam.

Quem ama não percebe o jeito que ama. Mas eu percebo que o coração pulsa entre as minhas pernas quando o amor já não cabe na frase. Quando eu descubro que o luar é o que existe de mais perfeito, só que depois, bem depois, muito depois de você.

O pensamento não pára.

Tenho pena das mulheres que não gozam.

15 Março 2009

De um tempo passado. Era no tempo do rei...

Eu tenho ciúme. Não desconfio de você. Juro. Quando falo alguma coisa que seja "desconfiante" é mais pra te ouvir dizer o contrário, é mais pra te ouvir falar de amor, de querer ficar junto. O que eu não gosto é dessas pessoas nos bombardeando com e-mail, telefonemas, torpedos, recados... Essa suposta liberdade para "aparecer" do jeito que querem. Não gosto.

Você é minha! Não é minha propriedade. É minha mulher, é minha namorada, é minha amante. É minha noiva. É a mulher que meu coração reconheceu, que eu reconheci como aquela única pessoa com a qual eu desejo ficar e viver por todo tempo que existe.

Você me sabe mais que eu. Eu deixo que você me saiba mais que eu. Eu faço todos os juramentos e promessas de amor por você. Tanto nas juras mais vivas como nos beijos mais longos, eu amo você.

Eu te amo até o mundo acabar e mesmo depois.

Não quero qualquer outra pessoa com qualquer tipo de liberdades contigo. Tenho vontade de falar com a pessoa, de ir tomar satisfação. De dizer pra todo mundo que você está comigo. Que a gente se ama. Que você não tem olhos, nem cabeça e nem corpo pra qualquer outra pessoa. Só pra mim.

O mundo que enlouqueça, mas você é minha. Somente minha.

15 Janeiro 2009

a gente precisa ver o luar

Cabeça, corpo, cama, desejo, desejo, desejo, coração, futuro, calma, alma, confiança, a boca mágica e maravilhosa que sabe exatamente o que quer fazer e tem, deitada a seu lado, alguém que quer fazer a mesma coisa e nada mais.

23 Dezembro 2008

onde as borboletas estão

Posted by Picasa

Noite alta, certa loucura, nenhum álcool e muito amor no coração.
Eu gosto quando você diz
sabe, nunca tive um papo assim que nem o que tenho contigo. E de quando você diz calma, vem cá e me abraça inteira e me faz deitar a cabeça em seu ombro, e tudo passa assim desse jeito.
Não, não quero nada nem preciso se estiver contigo.

12 Dezembro 2008

a língua lambe

Ilustração de Milton DacostaA língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

(fonte - http://www.memoriaviva.com.br/drummond/verso.htm)

Eu queria muito ser confortada por você. Lambida por você. Aconchegada.

17 Novembro 2008

o que não cabe na palavra

"Conversar é versar juntos", eu li do Gaiarsa. Eu faço uma estrofe, ela faz outra, e assim formamos uma poesia. Nossas descobertas e o nosso envolvimento nesse clima de respeito e liberdade. É gostoso nos descobrir sem pressa...

Um tesão esse momento onde estou totalmente voltada para ela . Para tudo o que eu amo nela... O sorriso, o jeito de andar, o cheiro. Ai, o seu cheiro! Nossa intimidade é poema do começo ao fim. Todos os momentos contigo são intensos. Estou muito envolvida. Como nunca estive antes. Há muita leveza nessas palavras.

No meio de tantas palavras, será que consigo realmente revelar a origem mais autêntica do meu desejo, dos prazeres e atos? É que amor não se esconde e viver esse amor é experimentar o sentido e a doçura da vida. Por esse motivo é que eu quero rasgos de lirismo incoerentes, quero ser ridícula como as cartas de amor ridículas do Fernando Pessoa. Mas "não facilite com a palavra amor", adverte o Carlos Drummond. Eu sei, Carlos. Eu tento. É que quando penso nela, sinto os passos leves do vento. Nenhum estímulo é mais determinante para o meu sorriso do que pensar nela.

Num mundo de pessoas tão fragmentadas, onde são cultivados os prazeres efêmeros e os relacionamentos se tornam cada vez mais descartáveis, vemos a grande maioria das pessoas entrando em relacionamentos com falsas expectativas. De mãos dadas, porém, nós seguimos na contra-mão desse mundo!

Fico aqui com o gosto da boca e do cheiro. Mas também tem a taquicardia, o frio na espinha, o vermelho no rosto, o brilho nos olhos e o sorriso na boca. A felicidade me enche o peito. Mesmo quando estamos longe. Mesmo que seja a maior barra "tar" longe dos sorrisos, dos carinhos dela. Da sensibilidade. O olhar dela suaviza a minha vida. Diante desse olhar, eu me curvo e me confesso apaixonada.

Ei, você! Eu desafiaria mil perigos para ver você, inclusive pegaria uma borboleta pra você... Ou colocaria uma estrela em seu bolso.

Perdoe a minha precariedade e as minhas palavras desajeitadas.

Te quero imensamente. Meu coração bate forte.

21 Outubro 2008

a fruição da linguagem

Um dos hábitos mais gostosos é o da leitura simultânea, descontraída, de vários livros, sem a preocupação de acabar a leitura. Mas o que eu acho gostoso mesmo é a fruição da nossa linguagem. Eu piro por essa leitura demorada - que me deixa com a calcinha melada só de imaginar...

11 Setembro 2008

astronomia amorosa

Em teu corpo
- agrupamento de estrelas
(astrônomo)
vejo constelações:
uma está
na ponta de tua língua
outra
a oeste de teus olhos
outra
pousada no ombro esquerdo
outra
na curva de tuas nádegas
outra
ao norte do seio se irradia
e na panturrilha esquerda
outra pequena brilha.

No sexo
uma estrela de 5ª grandeza
incendeia a galáxia inteira.

(Affonso Romano de S'antanna.)

Tema nenhum além do amor - tecendo, juntando. Amor que tudo enlaça.


19 Agosto 2008

procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

(Carlos Drummond de Andrade)

18 Julho 2008

amando

Amar alguém que te ama. Querer alguém que te quer.
Tem coisa mais gostosa na vida do que o amor?

11 Junho 2008

quem não tem namorado

Quem não tem namorado tirou férias do melhor de si. Namorado é a mais difícil das conquistas. Necessita de adivinhação, pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.

Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil! Namorado é mais difícil porque não precisa ser o mais bonito e sim quem se quer proteger, mas, quando chega, a gente treme, basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode estar sem namorado.

Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho e se acaricia sem vontade virar sorvete ou lagartixa, quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda rápida, escondida, fugidia, impossível de durar.

Não tem namorado quem não sabe o valor de olhar encabulado; de carinho escondido ou flor catada no alto do muro e entregue de repente; de gargalhada, quando fala ao mesmo tempo ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico, bugre, foguete interplanetário, ou carrossel de parque suburbano.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado e comprar roupa juntos.

Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor e de ficar horas olhando o outro, abobalhado de lucidez.

Não tem namorado quem não tem música secreta, não dedica livros, não recorta artigos e não se chateia com o fato do seu bem amado ser paquerado.

Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar; quem não passa ou recebe trote.

Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou ao meio-dia em dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações e quem só pensa em ganhar.

Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e tem medo de mostrar que se emociona.

Se você não tem namorado é porque ainda não descobriu que amar é alegre mas você pesa duzentos quilos de grilos, ponha a saia mais leve, aquela de renda de harpa e passeie de mãos dadas com o ar.

Enfeite-se com margaridas e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e sorria lírios para quem passar debaixo de sua janela.

Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão soasse a flauta e do céu baixasse uma nuvem de borboletas, cobertas de frases sutis e palavras de galanteria.

Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu nem cresceu aquele pouco necessário para fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.

Enloucresça!...

(Artur da Távola, Amor a sim mesmo.)

02 Junho 2008

O amor é um vício. O mais doce dos vícios.

15 Maio 2008

amor atravessando seu próprio impulso

É sempre por meio do amor que encontro meu lugar no mundo. No ato de amar, na conversa, no toque. Intimidade, sexo, privacidade são essenciais no amor, em parte porque é quando estamos nuas e juntas, sem mais ninguém por perto que o nosso "eu" vem apreciar nossa imperfeição e a importância dessa identidade compartilhada com a pessoa amada. Amar sensualmente não é só excitação e desejo, mas expressão de ternura, admiração, respeito, timidez, confiança. Confiança mesmo. Demonstração de amor. O desejo de abraçar, acariciar, de ser íntima... Vontade de sermos vulneráveis, apesar de alguns medos. A fala amorosa. A timidez da expressão inarticulada e sem vergonha alguma.

Eu não gosto muito de acreditar em tudo o que se teoriza sobre o amor. Não curto livros nem fala de pessoas que tratam o amor como assunto. Guias, mapas. Gosto de poesia, poema, letra de música, crônicas, contos, flores. Gosto de fazer amor. Gosto com um gosto gostoso. Gostar gostoso. Amor gostoso.

Com meus dedos na ponta das palavras, a linguagem treme de desejo.

O "sujeito" apaixonado quer alimentar o ser amado do seu amor, de si, deles, infinitamente. Barthes escreveu que "ninguém tem vontade de falar de amor, se não for para alguém."

* Agradeço a valiosa colaboração da magrinha.

08 Maio 2008

a nudez, no amor, não satisfaz nunca...

Quero dizer que te amo só de amor. Sem idéias, palavras, pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos, emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor.

São sombras as palavras no papel. Claro-escuros projetados pelo amor, dos delírios e dos mistérios do prazer. Apenas sombras as palavras no papel.

Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes. Fátuas sombras as palavras no papel.

Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen. São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam e dançam fazendo o amor como faço o poema.

Quero da vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as superfícies.

Não há limites para o prazer, meu grande amor, mas virá sempre antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço. Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me dás o gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um grande amor.

Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz nunca.

Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.

O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.

(texto de Roberto Freire)

18 Abril 2008

relâmpago íntimo

Eu desejo paz e conforto. Gostaria de ter respeito amoroso pela outra pessoa todo o tempo. É um exercício diário.
Penso sempre, sinto sempre; mas não querer, sem que não se queira, é o que aprendo com o que sinto e penso.
No exterior do interior da minha alma é onde mora o que sinto. Imaginação acordada. E tudo o que eu imagino e sonho tem você. É com os pés no chão que eu sonho... Com os braços te abraçando. Nessas horas sei mais de mim do que nunca soube.
Você exerce sobre mim uma atração irresistível, como a da Terra em relação à Lua.

15 Abril 2008

reductio ad absurdum

08 Abril 2008

manifestações de amor

Uma das mais deliciosas manifestações de amor é a falta de respeito.
Mário Quintana

02 Abril 2008

a única realidade é o cuidado

O amor não surge completo, acabado. É construção.

11 Março 2008

se você soubesse


Nina Simone - If You Knew

If you knew how I missed you
You would not stay away today
Don't you know how I love you
Stay here, my dear, with me

I can't go on without you
Your love is all I'm living for
I love all things about you
Your heart, your soul, my love

I need you here beside me
Forever and a day a day
I know whatever betides me
I love you, I love you, I do

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04 Março 2008

cuidados essenciais

Companheirismo, carinho, sexo, amizade, viver juntos, compartilhar interesses e todas as outras coisas de plenitude impossível sem o amor.

"Diga lá, meu coração
Da alegria de rever essa menina
E abraçá-la,
E beijá-la.
Diga lá, meu coração
Conte as histórias das pessoas
Nas estradas dessa vida.
Chore essa saudade estrangulada
Fale, sem você não há mais nada.
(...)
Diga um verso bem bonito e de novo vá embora
Diga lá, meu coração
Que ela está dentro em meu peito e bem guardada
E que é preciso
Mais que nunca prosseguir..."

27 Fevereiro 2008

papel de seda perfumado

O Nelson Rodrigues dizia que "não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo". Embora eu adore me divertir com as letras dele, não concordo com todas elas. Não se pode mesmo amar e ser feliz ao mesmo tempo?
A janela está aberta. Sopra no meu rosto um vento úmido e noturno. O vento diz alguma coisa e eu não traduzo as palavras proferidas. Há pontos de sentimento pela outra pessoa que não precisam ficar claros para existir. Eles existem. E talvez seja mais importante compreender a maneira pela qual a outra pessoa gosta de receber amor. Mas isso são divagações... Fato é que nossas almas e nossos corpos misturam-se. Interpenetram-se. E nosso jeito é um jeito de acalmar, dentro do maior tesão. Umidade, unidade.
Quero mesmo é ler poesia para ouvidos atentos. Seus olhos atentos.
Se contasse, a história desse encontro daria um romance. Ou uma fita de cinema.
E a noite... é como se a noite fosse o mundo.

"Essa que passa por aí, senhores..."
(excerto de "Santa", do sonetista Hermeto Lima)

15 Fevereiro 2008

mobile

29 Dezembro 2007

sentidos

O tempo trança e destrança. O tempo querido e estupefato. E não pára.

Estive lendo algumas páginas de "Os sentidos da paixão" (deixei-o em casa, de férias também, rs), editado pela companhia das letras, em 1987. Intelectuais brasileiros discutindo desde o amor em Platão até a paixão em Pasolini. Foi um curso livre que surgiu, tempo depois, em forma de livro. Amor. Paixão. Paixão, dor, amor. Foda? Foda é uma coisa. Romeu e Julieta, por exemplo, é uma história de sexo. Concordo com quem disse isso.

Eu quero amor. Um quentinho, uma meia-luz, uma coisinha doce, um aconchego. Amor sem conta. Sem distração. Sem reserva. E a gente se doa, e a gente se gasta, e a gente não pede troco.

Que todo amor seja quentinho, coisinha doce, aconchego. Em 2008 e sempre. E que todos sejamos muito felizes.

06 Novembro 2007

palavrório

A noite caiu sobre mim.
Penso no confessionário entontecedor dos sonhos... E ali, no roçar dos travesseiros, ela veio embelezar a minha vida.
Palavras soltas e frases pequenas ditas por nossos lábios quentes. Uma sussurrando no ouvido da outra, e as orelhas beijadas e lambidas por línguas, sensações, sentimentos. É preciso contar como é forte um amor.
Como conter a felicidade dentro do peito? Felicidade igual pássaro vivo. O gosto da rotina diária, eu quero com você.
Recordo nossos diálogos, o riso, o choro, o gozo. É do fundo do coração que eu te quero.
A tua imagem pára-me os olhos no fundo das minhas olheiras.
Abraçadas uma a outra, como crianças cochichando qualquer coisa, sugadas de gozo até a espinha... Mais... Mais...

17 Outubro 2007

isto é, se for

Dizem que existe sempre um ponto de partida que nem sempre é o início. Qual é o meu ponto de partida de agora? Não sei, mas é sempre o coração que me move.
Gosto de ficar conversando até tarde da noite na cama. Até tarde do dia. E fazer amor. Quando penso nela, sinto aquele calor por dentro. Queria tanto ter minha cabeça no colo quente dela e nunca mais sair.
Sempre que eu começo a acreditar que não existem mais borboletas, a vida vem e desmente.
E esse amontoado de palavras dizem e não dizem. Mas eu queria dizer e dizer e dizer até perder o sentido. Até desviar a razão.
Fome maiúscula de amor na vida. Daquilo que chamam amor. Ah, o amor, essa iluminação.
Nesta madrugada, tudo em torno de mim vestiu um ar de quem não te tem, mas te deseja pertinho. Bem aqui.

Vamos, poeta, cantar, luzir no lixo cinza do universo.
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
(trechinhos de A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha e Lílitchka!, meu poema favorito do Maiakóvski)