22 junho 2011

I hold you in my mind

Certa noite, ela e eu descobrimos a música. "Dance with me, I want my arm about you, that charm about you will carry me through to... heaven!"
Já tentei começar a escrever pra ela algumas vezes. Fico vacilante. Queria escrever algo no tom dela. Mas a música dá uma saudade! E eu só sei sentir.
Um bom abraço,
e saudades,
e vem cá,
e até

17 junho 2011

nexus

Algumas vezes, o pensamento faz amor.
Que lua haverá "la noche que me quieras"
[...]
Sei que tudo que estou fazendo é viajar sem me mover.
Saudade de você. Molhada e escorrida.


20 abril 2011

era uma vez uma história acontecida

E certa vez eu tive meu primeiro beijo com uma garota ou deveria dizer que ela certa vez teve o primeiro beijo comigo. Era no tempo de festa junina... Foi quando estávamos em quatro garotas, sentadas uma ao lado da outra, no condomínio onde ela morava. A ordem era Simone, ela, Carla e eu. Ela tinha 13 e eu 15. E no meio de uma conversa entre as quatro, ela me chama pra contar qualquer coisa no ouvido. Carla jogou o corpo para frente para que ela e eu pudéssemos nos aproximar. E ela me disse “eu vou beijar você” e recuou lentamente a cabeça para trás, rosto colado ao meu, deslizando a boca do pé do meu ouvido até a minha boca. E tudo em mim parou. Simone e Carla falando em garotos e ela ali, entrando na minha história. Acho que mil expressões passaram por mim. Segundos em que o mundo parou para que eu sentisse aquela língua na minha boca. As duas sem jeito para o beijo e ninguém podia perceber. Tive vontade de abraçá-la. E o restante da noite se passou sem eu sequer imaginar o que elas falavam. Deviam falar ainda nos garotos. Eu só fazia “é”, “hum rum”. Eu havia tido meu primeiro beijo com uma garota e achei que nunca mais conseguiria sair daquele torpor. E me sentia tão mais velha do que ela. Quase uma criminosa por tê-la beijado de volta. Mas ela era tão adolescente quanto eu. Duas noites após aquela, eu não suportei. Inventei uma desculpa para as outras garotas, peguei a mão dela e a levei para as escadas do prédio. Parei logo no primeiro andar e eu a beijei. Com um desejo infinito de vencer todos os sentidos. Ainda tenho uma carta com um cacho dos cabelos dela.

É. Hum rum.

Há noites em que sinto a vida sem pressa de acontecer.

19 abril 2011

tedium vitae

A vida não é uma história em que cada minúcia encerra uma moral. Se assim fosse, seria irrespirável.

12 abril 2011

quase

Noite fria, e eu me sinto distante e então eu sinto uma saudade no peito, uma saudade de criança, e volto no tempo bem devagar, há 3 anos, há 10 anos, há 20 anos. Quase consigo aninhar as pessoas em meus braços.
Que vontade de escrever as sensações que sinto, palavras que pareceriam ridículas, simples demais e talvez você pensasse que escrevo por teimosia, só mesmo para existir. E não é que eu sinto algumas vezes a minha imagem perdida no espelho? Olho o meu reflexo e procuro a menina que fabulava histórias com bonecos de plástico e cadeirinhas de criança. Eu fazia novelas sentimentais bem atrás do pé de tamarindo. Uma árvore tão alta e tão idosa que teve que ser cortada pelo corpo de bombeiros. Mal sabíamos que aquela árvore era a força dos meus avós, da nossa família. Sem ela, ficamos menos nítidos.

A única realidade da vida é a sensação.
Fernando Pessoa

05 abril 2011

a indiferença nada mais é...

 

Autor: Elie Wiesel
A INDIFERENÇA NADA MAIS É QUE A INCAPACIDADE DE PERCEBER AS DIFERENÇAS.
É UM ESTADO ANORMAL, NO QUAL PERDE A NITIDEZ A FRONTEIRA ENTRE A LUZ E A ESCURIDÃO, A ALVORADA E O CREPÚSCULO, O CRIME E O CASTIGO, A CRUELDADE E A COMPAIXÃO, O TALENTO E A MEDIOCRIDADE.
ASSIM É A INDIFERENÇA!

Sobre o autor:
Elie Wiesel é um judeu nascido na Romênia e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, que recebeu o Nobel da Paz em 1986 pelo conjunto de sua obra de 57 livros, dedicada a resgatar a memória do Holocausto e a defender outros grupos vítimas de perseguições.

23 março 2011

uma pedra no meio do caminho

O que fazer quando não se sabe o que fazer? Fazer de si.
Por enquanto, estou desfeita.

21 fevereiro 2011

o eco de antigas palavras bota no corpo uma "outra vez"

Absorvida na leitura de um livro e sentindo o aroma de café, penso nos três meses que levei para achá-lo em um sebo. Estava mergulhada na leitura do prefácio do meu livro quando ela me interrompe o pensamento. Vem ao meu encontro com trejeitos e gestos expressivos. Sinto-me feliz. Ela chama o garçom e pede a conta. E ri com riso tímido. E eu a quero inteiramente para mim.
Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos adivinhar aquilo que estamos vivendo. E é assim que compreendemos o sentido do que sentimos. E ela encoraja o meu interesse por ela. Ficamos "presas" uma a outra em momentos assim. Momentos que sempre existirão em mim, momentos que parecem sair do chão como feiticeiras de Macbeth, em que esse rosto dela com todas as suas transformações e a fala vão me invadir.
Pode existir qualquer coisa mais importante que amar e ser amada? E correr os riscos do amor, vale? Não se arriscar é estar aprisionada em seu próprio corpo. Prevenir-se no amor é matar a capacidade de aprender com suas conseqüências. Vale a pena, sim. Mesmo que a canção diga que quando se ama se está sempre na plataforma de uma estação.
Bem posso, como quem ama, andar com os pés na terra e a cabeça no céu, com beijo de lábio de mulher, desejando com um amor possessivo, quase acidental. Amando, eu amo como ninguém no mundo amou. Ninguém conta as horas com ardor mais febril. Tudo é permitido: dizer tudo, tudo fazer, tudo ser, tudo experimentar, tudo em tudo.
Um número incalculável de corações bate em meu ventre. E minha língua buscando na noite salgada, na noite viscosa, na carne quente, na carne frágil. Sempre pensei que um dia ia tropeçar no meu tesão. Cheiramos. Percorremos. Mordemos. Esprememos. Lambemos. Todos os movimentos mais ondulantes. Sem-vergonhas. Retorcendo-nos. Atirando-nos uma na outra, confundindo nossos líquidos, nossos cheiros. Você me engravida de feminilidade. Assim. Assim. Assim. Assim. Assim...
Por instantes posso deixar de acompanhar as mazelas desse mundo para romancear a vida. Posso confiar nessa felicidade, confiar em meu amor, e me abandonar te olhando em silêncio e encantada com o que aconteceu de tão bom.
O amor tem tantos gostos.

16 dezembro 2010

amar e esganar você

Sabe quando o amor vem querendo seguir para sempre, como um barco com céu estrelado? A liberdade de seguir. Tudo pode ser dito. Tudo pode ser experimentado. Esses momentos que não são só ouvidos, são convertidos nesta história que você e eu contamos sobre nós mesmas.
Falar com quem se ama é estupidamente diferente de falar com qualquer outra pessoa. Viver é diferente. Nem sempre é fácil, você e eu sabemos. O caminho é tortuoso, matamos dragões no mundo que criamos juntas, mas é doce. É doce até quando achamos que perdemos a doçura. O amor também é isso. E amar você é me interessar por você, me preocupar com você, querer te ouvir a todo instante, é desejar dançar com você coladinha, é te compreender, conhecer o seu espaço, conhecer os seus gestos, é achar que você tem que me aturar e me suportar quando nem eu mesma me suporto. Sentir o cuidado que existe na consciência que você tem do que eu posso estar sentindo, mas não consigo definir. Sentir o cuidado, teu cuidado, na disposição e suavidade de penetrar no meu mundo, e me abrir os braços.
Têm dias que eu sinto tanta saudade que sufoca. Aflição de poder depressa ficar só com você. E têm dias que eu sufoco com você.
Hum-rum...
Mesmo te amando, posso sentir emoções contraditórias. Posso ter raiva de você por quase um segundo, posso ter vontade de esganar você por quase um segundo. Depois te amo mais... É assim que esse amor pode ser a coisa mais delicada e simples do mundo. E a coisa mais irritante também.
Quais são as cores e as coisas pra te prender? Minhocas na minha cabeça dizem que para tão longo amor, tão curta me parece essa vida. E eu nem mesmo sabia que minhocas falavam.
Vem cá enroscar suas pernas em mim. Vem que eu quero deslizar meus dedos pra dentro da sua calcinha... Sentir teu mundo balançar. Tem um tesão em mim que parece mentira... Se você apenas me der a sua mão, eu não vou pedir mais nada. Algumas vezes, mais do que qualquer outra coisa, você me dá a mão. Isso é amor.
Você alegra absurdamente esse meu coração.


  * Publicado em maio de 2007. 
** Para aquela que continua alegrando o meu coração.

01 dezembro 2010

além do ponto

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. [...]
(Fragmento do conto Além do ponto, Caio Fernando Abreu.)